Sou autista. E agora?
Recentemente recebi o diagnóstico de autismo. Sim, o nível dos esquisitos demais pros normais, mas normais demais pros esquisitos. Assim que engravidei tive contato com conteúdo sobre diagnóstico tardio em mulheres e comecei a ler e ver vídeos. Não fui atrás de um profissional na época, mas comecei a desconfiar cada vez mais.
Hoje, minha filha tem 1 ano e 11 meses. Há alguns meses atrás eu comecei a me sentir sufocada comigo mesma em determinados dias e comecei a achar muito estranho porque por fora tava tudo bem. Eu conseguia fazer tudo o que tinha que ser feito, as poucas crises que eu tinha eram silenciosas (normalmente as crises consistem em eu me isolar e não querer falar por algumas horas), eu quase sempre conseguia adaptar qualquer coisa pra não me sobrecarregar. Então, o que tinha de errado?
Bom, o que tinha de errado é que às vezes eu não tirava nem 1 horinha do dia pra ficar completamente sozinha mesmo tendo uma rede de apoio enorme e meu marido sendo um pai muito presente pra minha filha. Aconteceu que eu sempre ia no mercado sem algum tipo de suporte além do meu marido, como um redutor de ruído, e voltava completamente exausta e sem conseguir falar NADA até fazer algo que me regulasse. Aconteceu que eu sempre me forcei a viver como todo mundo, só abafando a sensação de que eu percebia que era diferente mas não sabia o motivo. “Por que eu sou assim?”, “devo ser preguiçosa porque hoje não queria interagir ou fazer nada. Faço coisas que são simples pros outros e me canso”, “não gosto de estar com muita gente”, “não entendo como manter amizades às vezes”. Essas e tantas outras coisas que já me passaram na cabeça durante a minha vida.
Um dos maiores motivos pra buscar o diagnóstico foi pra saber como lidar comigo mesma, mas também minha filha e meu marido. Eu já esperava o diagnóstico, mas me surpreendi com as coisas que vieram junto: não pensei que isso seria invalidado por pessoas próximas. É muito comum ouvir que psicólogo não dá diagnóstico, mesmo em 2026 já temos tantas informações que, sim, ele pode dar diagnóstico. Uma forçação pra tentar dizer que não sou autista vinda de pessoas próximas que “me conhecem”, mas não conhecem. 25 anos de uma vida inteira me moldando e me adaptando pra tentar me encaixar. Pra além de ter sido a “filha que não deu trabalho” vocês já imaginam…. Uma criança/adolescente que tinha muitas opiniões, mas não expunha. Um estresse repentino por me forçar a estar em lugares, ou ser forçada a estar em lugares que me sobrecarregam demais, como escola e igreja, sem suporte NENHUM porque isso nunca foi uma cogitação antes. Crises silenciosas, uma adolescente deprimida que dormia a tarde inteira depois de chegar da escola, que as pedagogas chamavam os pais pra perguntar se algo acontecia porque eu não interagia, uma sensação de não pertencimento bizarra. Mas, eu sempre fui “normal”, porque sempre escondi muito bem, né?
O problema disso é que você se esconde a vida toda, mas se não escondesse, seria minado do mesmo jeito porque você não é tão normal assim. Então, teria sido um problema também.
A invalidação me irrita porque um profissional especialista me avaliou por mais de 1 mês. Porque ele confirmou coisas que eu mesma já tinha lido a respeito. Porque muitas coisas hoje fazem sentido e consigo me ver de uma forma mais leve por saber que meu cérebro funciona diferente. Depois de 25 anos no limite, não dá pra aceitar que tudo que conheceram era só uma máscara pra ser aceita?
Mais bizarro ainda, porque surgiu o assunto de outros diagnósticos, que ainda não tenho falado sobre porque ainda tenho ouvido e aprendido mais com a minha psicóloga (mais pra frente pretendo abrir, porque também me deu muitas respostas) e eles foram muito mais aceitos. Porém, é aceito porque as pessoas também não sabem como funciona de verdade. Pra mim, me dá prejuízos que, às vezes, são piores do que os relacionados ao autismo. As pessoas querem impor a opinião do ego delas, acima de um profissional, e escolher o que faz sentido ou não, o que é legal ou não, simplesmente porque não sabem como as coisas funcionam ou estão presas em 1980, numa época em que tudo era muito diferente de hoje.
Junto com isso, comecei a ficar meio chateada por não saber como é um cérebro padrão. É sério que nem todo mundo tem um jeito certo pra fazer as coisas? Ordem de talheres, pra tomar banho, organizar roupas? É sério que as pessoas conseguem ser flexíveis a ponto de viajarem pra um lugar sem programar NADA? Ao invés de pesquisar até os locais próximos de pontos turísticos que tem banheiro, lanchonete ou qualquer coisa que eu possa precisar com os 30 cenários diferentes que eu já pensei? É sério que não se importam com a textura das comidas ou não veem diferença no macarrão espaguete pro macarrão penne? Como deve ser ter um cérebro não tão vigilante? Um cérebro mais calmo? Por que justo o meu veio assim?
É uma mistura de coisas boas e ruins. A gente finalmente se entende melhor, aprende a lidar melhor, a impor mais nossos limites, enquanto lida com a invalidação de gente sem preparo nenhum, atrasadas e presas no tempo, que só conhecem um personagem feito pra sociedade. Enquanto isso, o “luto” do nosso “eu” que a gente também achava que conhecia, mas que enganamos até a nós mesmos, e agora estamos conhecendo uma nova versão.
Sou autista, não tenho vergonha em dizer isso. Não me sinto exposta, não sinto mais a necessidade de me esconder. Sejam meus traços de personalidades, opiniões, gostos, manias, os meus limites. Voltar pra terapia foi a melhor coisa que fiz em muito tempo. Receber o meu diagnóstico tem sido libertador, mesmo que desafiante também, mas já consigo amenizar muitas coisas que antes me levavam ao limite.
Espero que você que é neurodivergente ou que ainda apenas desconfia, consiga buscar ajuda profissional e receba seu diagnóstico. Que você não tenha vergonha de ser como é, porque, afinal, não é culpa sua. Jamais vou romantizar ser neurodivergente. Eu não queria ser, mas sou. Talvez você seja. E tá tudo bem do mesmo jeito, porque vamos aprender a viver com isso de uma maneira mais leve.



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