O Desconforto Confortável Que Te Prende
Letícia Nielsen Chaves, 19 de Junho de 2026.

Já parou pra pensar em quantas vezes você ficou em um lugar, em uma situação ou com pessoas que já não faziam mais sentido na sua vida só porque tinha medo de tentar algo novo?
Eu passei muito tempo assim. O medo de me frustrar, de me magoar, de ser ferida de novo, ou simplesmente o medo de falhar, me prendiam numa bolha que eu achava segura. Quando era mais nova, eu resolvi esse problema da forma mais simples possível: se eu não tentasse, logicamente não ia falhar. Mas o tempo foi passando e eu fui entendendo que frustrações e rejeições fazem parte da vida e que muitas vezes são elas que ensinam as coisas mais importantes da nossa jornada.
O desconforto confortável é exatamente isso: um lugar (físico ou mental) onde você não está bem, mas também não está mal o suficiente pra se mover. Você se acomoda no que conhece porque o desconhecido dói antes mesmo de acontecer.
Comecei a perceber esse padrão em mim mesma de várias formas. Durante muito tempo eu não fui muito fã do Rio de Janeiro, por exemplo. Nada daquele lugar me atraia. Nem praias, sotaque, paisagens. Então, casei com um carioca. Já tinha ido ao Rio outras vezes, sempre por Niterói, nada muito turístico e do lado da Cidade do Rio. Em 2020 fui pra Zona Norte pela primeira vez conhecer mais os meus sogros. Meu sogro bem solícito me levou pra uma tour de carro em vários lugares. Vi o estádio do Botafogo, a Zona Sul, a Barra. Mesmo ainda em época de pandemia e que não pude fazer praticamente nada, vi muitas coisas do carro. Paramos na Quinta da Boa Vista para almoçar. Nesse dia, as coisas começaram a mudar. Eu amo história. Amo saber sobre o período imperial no Brasil e sou muito curiosa quanto a isso. A Quinta da Boa Vista já foi cenário da família real no Rio de Janeiro e eu achei incrível poder estar ali.
Em 2022, voltei pra lá, agora casada, na minha lua de mel em Botafogo. Aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Não só pelo casamento, naquele clima de esperança e felicidade pelo casamento, mas pelo que eu vivi ali. Fui em tantos lugares legais e históricos. Conheci o Cristo, mesmo com medo de altura; conheci o palácio do Catete, onde Getúlio Vargas viveu (o lugar é lindo demais). As ruas da Zona Sul me encantaram com todas aquelas árvores com folhas caídas, táxis amarelos chamativos, pessoas indo e vindo com coisas de praia. O lugar parece vivo demais.
Eu sou do Espírito Santo e gosto muito do meu estado natal. Não é um lugar enorme, mas não é minúsculo. Tem boas praias, lugares legais, e eu, como uma pessoa introvertida, até gosto que os capixabas são mais reservados. Ir pro Rio de Janeiro em 2022 foi conhecer uma cidade enorme, cheia de coisas que nunca vi antes. Um estilo de vida que me chamou muito. Se eu não tivesse dado uma oportunidade pra conhecer aquele lugar, jamais teria conhecido coisas tão legais que ele tem.
Esse ano eu decidi colocar em prática o famoso: pega e faz. Mesmo que pareça novo, mesmo que eu não goste de início, mesmo que me tire da zona de conforto. Pego e faço. Eu perdi 35kg depois de ter minha filha e TODAS as minhas roupas ficaram extremamente largas. Desisti de tentar parceria com uma marca famosa porque pensei “já tem muita gente tentando”. Mas por fim, pensei: quer saber? O “não” eu já tenho. Enviei um e-mail e 2 semanas depois estava com a parceria fechada e agora renovo meu guarda roupa.
Nunca precisei de secador de cabelo porque sempre deixei secar naturalmente. Comecei a fazer selagem há alguns meses e virou uma necessidade pro processo da selagem. Encontrei um concurso na internet de uma marca que o prêmio era uma mala com produtos e um secador muito bom. Percebi o estilo de vídeo que a marca queria e não era algo que eu gostava de fazer. Mas pensei: não importa. Fiz um vídeo. Não gostei. Fiz outro. Ganhei a mala.
São poucos exemplos de coisas que não foram confortáveis pra mim, mas que tive um retorno positivo. Muitas vezes o desconforto vem por causa da auto sabotagem. A gente nem tenta e já pensa em milhões de motivos pra não dar certo. Hoje tento focar, por mais difícil que seja, nos motivos que poderiam fazer dar certo. Mas eu fui. Quando oolho pra trás, penso: imagina se eu não tivesse tentado? Ainda bem que eu tentei.
O que eu quero que fique desse texto é: o seu desconforto confortável é uma armadilha bonitinha que te deixa estagnado. Não dói tanto pra você sair correndo, então você fica ali mesmo que a vida continue. Novas versões de você ficam esperando do outro lado de cada tentativa que você ainda não fez. Gosto muito de uma música do Coldplay chamada Fix You e uma parte dela diz “Se você nunca tentar você nunca vai saber”. É exatamente isso. Se você nunca tentar, você nunca vai saber nem se você ia receber mais um “não” pra sua lista.
Você não precisa pular em tudo que você quer fazer e tem medo, mas precisa começar a se movimentar mesmo com medo. Talvez existem diversos “sim”, países, cidades, empregos, pessoas, coisas incríveis que te esperam do outro lado. Tudo isso esperando que você dê o primeiro passo.



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