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Traição em Filmes e Séries: Por Que Isso Me Incomoda Tanto?

Foto do escritor: Letícia Nielsen
Letícia Nielsen
20 de jun.
4 min de leitura

Por Letícia Nielsen Chaves, 20 de Junho de 2026



Eu odeio filmes que têm traição. Principalmente quando os personagens principais precisam trair os parceiros para poder ficar com quem o roteiro "destinou" a eles. Faz tempo que eu gravei um vídeo falando do Morro dos Ventos Uivantes (fazendo um grande parêntese: eu não li o livro, então estou falando só do filme). A personagem principal precisa trair o marido ( que aguenta muito e é simpático) pra poder ficar com Heathcliff. Mesmo que ela o amasse desde a infância, ela estava casada. E esse amor juvenil, por mais anos que tenha, pra mim não justifica meter um chifre no outro.


Eu fico pensando: por que tem tanta produção que usa a traição como recurso narrativo pra aproximar o casal principal? A pessoa destrói a vida romântica de outra, quebra a confiança... e isso é vendido como algo bonito? Como amor proibido? Não. Amor proibido, pra mim, é a menina rica cujo pai não quer que ela fique com o cara pobre. Isso é amor proibido. Algo que vem de fora e proíbe os dois. Traição é uma escolha que machuca o outro.

Já Emily em Paris, por exemplo (que assisti a primeira temporada quando lançou e alguns pedaços da segunda),é uma série que acho legal, inclusive por causa do universo da publicidade (que é minha área) e porque amo a Lily Collins. Mas ela não me prendeu o suficiente pra assistir tudo. O que eu lembro é que o Gabriel precisa trair a namorada para ficar com a Emily. Essa discussão voltou à tona na internet faz pouco tempo, e mais uma vez as pessoas estão passando pano, defendendo o casal protagonista.


Essa dinâmica me cansa. Porque a questão não é nem torcer pelo casal porque eu entendo que a gente se apega aos personagens e quer que eles fiquem juntos. O problema é quando a única forma do roteiro unir os dois é através da traição, como se isso fosse inevitável ou bonito.


Maxton Hall foi uma série mais recente que eu também vi sendo discutida: o personagem masculino traiu a protagonista, e toda a internet foi lá defender ele com justificativas do tipo "ah, mas a mãe dele morreu, ele estava em luto, ele devia estar perturbado na festa". Meu avô morreu em 2023 e foi horrível pra mim e ainda assim eu não traí meu marido (imagine um emoji de palhaço aqui). O que uma coisa tem a ver com a outra? O pano é passado porque a galera quer que aquele casal fique junto. Eu entendo isso, eu também quero que eles fiquem juntos, em muitos casos, inclusive em Maxton Hall. Mas pelo menos essa série específica não tem o teor de "precisam trair os parceiros para ficarem juntos", ele traiu ali e ela vai ter que decidir o que fazer. Isso é diferente de roteiros onde a traição é o próprio mecanismo do romance.


Comparando o Verão que Mudou Minha Vida com Maxton Hall e outras séries: todo mundo odeia o Jeremiah porque ele trai a Belly. Mas quando outro personagem de outra série faz a mesma coisa com a protagonista, a galera defende porque torce pelo casal diferente. Por que será que isso acontece? Um ator é mais bonito que o outro e passam pano? Na ponta do triângulo amoroso o Jeremiah não é o favorito, então não perdoam ele? Uma história é mais intensa que a outra, então o público recebe diferente? Pra mim é a mesma coisa. Traição é traição, mesmo que eu possa entender o contexto da narrativa. Não julgo as personagens que perdoam ou coisas do tipo. Meu problema é com o que trai. 


Tem uma dinâmica que eu gosto bastante em alguns romances: os personagens se gostam desde a infância, mas nunca chegam a fazer nada enquanto estão comprometidos. O famoso friends to lovers. Amo Simplesmente Acontece. Ele quase beija ela, passam uma noite juntos, mas nada acontece porque ele estava comprometido. Depois ele termina o relacionamento, ela arruma outro namorado, e mesmo assim eles não chegam a ter nada enquanto qualquer um dos dois está em um relacionamento. Isso pra mim é muito mais interessante narrativamente e muito mais honesto.


Há também situações em que o contexto histórico pesa. Suíte Francesa é um filme que gosto muito. Uma viúva de guerra que não tem notícias do marido há anos, a sogra que já buscou e não achou, e ela que, relutando, segue em frente. Esse é um contexto. Agora, simplesmente trair porque "aconteceu", porque "eu gosto da outra pessoa" é diferente.


Quando eu olho para quanto conteúdo normaliza a traição, seja como plot, seja como algo sem consequências, fico pensando que isso tem impacto nas pessoas que consomem essas histórias. Principalmente adolescentes sem supervisão, mas esse é outro assunto.


Eu amo A Grande Família. Quando estava grávida, assisti muito Tapas e Beijos também. Mas quando você analisa esses clássicos com outro olhar, percebe que a traição e o comportamento de flerte são tratados como uma característica "engraçadinha" dos personagens masculinos. Em Tapas e Beijos, tem o Armani, que fica com a Fátima, e tá tudo bem pro ciclo social deles, pra série, para todo mundo. Mas ele é casado. E ele ainda flerta com outras mulheres. A Fátima, que é a amante, fica brava quando ele flerta com outras porque, pra ela, ele está "traindo ela", sendo que ela mesma é a amante. Mas isso é tratado como humor. Mesmo que seja engraçado, quando foi que a gente passou a achar isso normal? Na Grande Família, o Agostinho nunca chega a trair a Bebel, mas a série toda ele flerta com outras mulheres, pega telefone de outras, e a Bebel descobre em vários momentos. Isso é apresentado como algo cômico, normal e parte do personagem. Amo o Agostinho, mas isso não é legal não. Eu entendo que são produções de outra época, mas nas séries atuais, feitas para a geração de hoje, com toda a informação que temos disponível, ainda acontece. 


Seria tão mais simples, narrativamente, um personagem dizer: "Olha, não quero mais ficar com você. Eu gosto de outra pessoa." Tchau, acabou. Sobe os créditos. Mas essa saída honesta raramente aparece.

Eu não gosto, mas acabo assistindo também. Preciso ignorar muitas coisas em muitas obras pra assistir. Não tem como tudo ser perfeito. Não tenho muito o que fazer a não ser continuar assistindo e criticando aqui com vocês, não é?


 
 
 

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